Total de visualizações de página

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Gestão de Corpo Clínico e processos de Acreditação Hospitalar

Há alguma coisa estranha acontecendo nos corredores dos grandes hospitais. À medida que mais e mais organizações vão obtendo selos de Acreditação (e a velocidade com que esse fenômeno ocorre nem é tão grande assim), quem for bom observador acaba por perceber que essas grandes transformações, quase sempre acompanhadas de repercussões midiáticas, talvez representem, sob certos aspectos, apenas uma cortina de fumaça para encobrir as iniquidades que os mais atentos assinalam, e quase sempre são ignorados.
Dito de outra forma, é bastante possível (e provável) que o processo de Acreditação em vários hospitais brasileiros não mude fundamentalmente a forma de condução dos processos assistenciais em relação ao que eram antes da certificação. Chamo a atenção para o fato de que na imensa maioria dos hospitais um contingente significativo de médicos que se situam na linha de frente do cuidado não estão totalmente alinhados às novas exigências de postura e de execução de tarefas que o processo de Acreditação preconiza. À exceção de algumas organizações que carregam uma enorme responsabilidade na manutenção da excelência de seus serviços, a dura realidade tem mostrado que a despeito de múltiplos esforços no fomento, implantação e manutenção dos princípios da qualidade hospitalar, há um distanciamento preocupante entre o preconizado, o que se diz fazer e o efetivamente feito.
Ilude-se quem pensa que é um fenômeno isolado. Mesmo com todo o incentivo oficial e das constantes iniciativas de realizar comparabilidade em nome dos consumidores, somente 30% dos hospitais norte americanos possuem um corpo de médicos que seguem protocolos e diretrizes, segundo Richard Bohmer, pesquisador da Harvard School, para ficar apenas nesse exemplo. Sabemos que as dimensões da linha de cuidado são várias, e protocolos e diretrizes são um meio e não uma finalidade, um dos vários aspectos nesse processo.  Então o que é que poderia justificar essa constatação?
Nunca é demais lembrar que existem ótimas organizações de saúde, que por diversos motivos ainda não consideram o processo de Acreditação uma prioridade. E existem outras que ostentam um selo de certificação na sua entrada, nas placas das ruas e no noticiário, sem de fato alterarem suas práticas de forma substancial. E isso tem uma consequência muitíssimo danosa ao usuário, que não tem a capacidade de distinguir ambas as situações extremas e as variáveis intermediárias. Ele pode fazer escolhas que talvez não preencham suas expectativas. Pior, pode ficar exposto a situações que afetem sua segurança e o próprio processo de recuperação de doença. Afinal, segurança do paciente é o pressuposto básico de qualquer processo de Acreditação Hospitalar.
Médicos são profissionais que fazem parte de uma categoria única. Mas isso nem sempre deve ser considerado um elogio. Sua formação técnica exclusiva lhe confere uma autonomia do qual nenhum outro profissional pode desfrutar, sua liderança natural dentro de uma equipe assistencial é inquestionável e sua representação perante as mais diversas situações é sempre respeitada. Seu respaldo ético e legal para exercer sem muitos questionamentos sua prática é, ao pé da letra, ilimitado (resguardando-se certos aspectos éticos e desde que não inflija nenhum mal ao paciente). Sua formação curricular muito raramente aborda questões de natureza psico-social no trato dos pacientes, e seu aprendizado na área de economia da saúde ou gestão de itens elementares que irão permear sua prática diária no relacionamento com suas fontes pagadoras é praticamente inexistente. Para completar, é de suas mãos, ao digitar ou assinar prescrições, evoluções e relatórios, que resultará o grau de desempenho da organização que o acolhe.
Por essas e por outras, esse indivíduo deve ser tratado de forma diferenciada. Nem melhor, nem pior, apenas diferenciada. E a impressão que tenho é que isso não está ocorrendo, na medida em que a rotina do processo assistencial nos hospitais carece de linearidade da definição de tarefas, de comunicação horizontal e vertical simples e direta entre equipes, intra-equipes e entre todos com seus respectivos gestores; e o pior, de práticas fora do padrão estabelecido após tanto investimento na implantação de processos de qualidade. Trocando em miúdos, ninguém está brincando do jeito que foi combinado.
Apontar problemas é fácil, mas considero o cenário bem complexo para arriscar uma solução definitiva. Entretanto, tenho uma sugestão simples, porém trabalhosa, e que envolve o gestor clínico na sua atividade.
Vivenciar o ambiente hospitalar nas suas peculiaridades e idiossincrasias é um exercício difícil e obrigatoriamente diário. O gestor clínico não pode exercer sua liderança atrás de uma mesa, realizando reuniões solenes ou produzindo incontáveis documentos regulatórios sem que esteja em sintonia contínua com todos os aspectos assistenciais nos mais diversos nichos da organização. É um trabalho de construção lenta e gradual, no qual sua liderança sai fortalecida a aquisição do respeito da comunidade se dá sem canetadas. Caminhar entre os diversos setores, ouvir mais que falar, estabelecer vínculos de confiança com todas as categorias profissionais, ser presente e não se abstrair de intermediar situações de conflito, estar sempre disponível e nunca se deixar influenciar pela posição hierárquica, a não ser quando necessário: eis um bom caminho para começar.
Não existem certos ou errados nessa história. Profissionais existem para exercer sua prática, gestores para guiá-las dentro dos interesses da organização. E os processos de implantação de qualidade não dão conta de contemplar esses aspectos não mensuráveis.
O gestor deve tomar a dianteira e se responsabilizar pelo seu grupo de médicos.
Nada menos que isso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O que seu médico não diria a você

Na edição brasileira de fevereiro da revista “Seleções”, o chamado de capa fazia referência sobre “45 Segredos que os Cirurgiões não diriam a você”. Na matéria, alguns fatos corriqueiros e outros mais complexos, principalmente porque, a meu ver, agravam o abismo existente entre o paciente e o médico no que tange à igualdade de meios para uma discussão equilibrada acerca das doenças e seus múltiplos aspectos.

A assimetria de informação, tão própria do setor saúde, tem o seu ápice naquelas circunstâncias em que o paciente submete seu corpo inteiramente aos dons do profissional, que procederá da forma que julgar naquele momento a mais indicada para a resolução de um problema que ora se apresenta, seja de forma invasiva ou não. E o Setor de Emergência é o mais visível para as mídias e para a população em geral, uma verdadeira salada de situações que refletem de forma boa ou má a agudeza desse cenário.

A sala de cirurgia é outro local especial, na medida em que a integridade do corpo do paciente, do nosso corpo, é violada pelos instrumentos de trabalho de um profissional que em uma infinidade de vezes nunca tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente, e muito menos ainda no exercício de seu labor.

E das Unidades de Terapia Intensiva então, que dizer? Sob efeito de drogas sedativas e analgésicas potentes, e muitas vezes com dispositivos acoplados que impedem a comunicação e movimentação com o meio, o paciente pode ser vítima do próprio corpo, um animal de experimentação para tentativas de restabelecimento de funções, que podem ou não lograr êxito a depender da eficácia das ações que sobre ele recaem, e do desempenho daqueles que estão por detrás delas.

Todo esse preâmbulo tem por finalidade adicionar um comentário ao já desgastado noticiário (e imaginário) que cerca a prisão da médica chefe da UTI Geral do Hospital Evangélico de Curitiba. Nesse episódio, considero importante a recomendação de que não retrocedamos mais no árduo trabalho que os intensivistas em geral desenvolvem no sentido de romper mitos e paradigmas acerca dos propósitos da medicina intensiva. Dentro das UTI’s não se matam pessoas. Dentro das UTI’s não se expõem pacientes a riscos desnecessários, muito menos a sofrimentos físicos ou psicológicos intencionalmente. E dentro das UTI’s, ninguém, repito, ninguém trabalha sozinho.

Atitudes circenses, grosseiras ou deselegantes de qualquer profissional de saúde não são muito diferentes de outros campos de atuação. A grande diferença é que seu paciente/cliente encontra-se num momento de fragilidade enorme e cheio de expectativas. Afinal, dificilmente alguém vai ao hospital por vontade própria ou por prazer. Daí a responsabilidade adicional do profissional que trabalha numa UTI, por exemplo, de ser mais atencioso e equilibrado na hora de se apresentar ou de se relacionar interna ou externamente.

Mas não confundamos as coisas. Experiência, carisma e conhecimento técnico continuam sendo tão importante quanto ou até mais que os anteriores. E, conforme muitos acreditam, é o que efetivamente fará a diferença no desfecho clínico dos pacientes aos seus cuidados.

Você, gestor hospitalar, trate de ficar atento às suas lideranças. Por mais bem qualificadas que elas sejam do ponto de vista de formação e experiência, se não forem identificados nelas elementos em seu perfil que contemplem a capacidade de trabalhar em grupo, a preocupação com a “moral” e a imagem do setor, e por fim, uma postura apropriada para o exercício de tal liderança, é melhor que se apresse em corrigir essas distorções.

Nesse caso recente, quem ficou mal na fita foi a organização e seus gestores. Porque a médica em questão tinha um superior hierárquico, que a conhecia bem. E assim é que todo o trabalho sério que acompanha a rotina das UTI’s, na conquista da confiança de pacientes e familiares, dá um passo para trás. Porque você, gestor, não fez o seu trabalho.

Vamos refletir um pouco antes de fazermos nosso julgamento, e, principalmente, vamos aprender com o fato. Seja ele fundamentado ou não.

À luz dos princípios que conduzem as modernas organizações hospitalares, não há mais espaço para segredos ou omissões. Médico bom é médico que não tem medo de mostrar como trabalha.

Nem de contar o que faz.